40 de rombo!

“E estendendo a vista até muito longe, até aos limites do Campo de Concentração, onde os fogos luziam mais espalhados, o vaqueiro sacudiu na boca uma mancheia de farinha que lhe oferecia a mulher e, procurando quebrar entre os dedos um canto de rapadura, murmurou de certo modo consolado:

– Posso muito bem morrer aqui; mas pelo menos não morro sozinho…”

(Trecho de “O quinze” de Rachel de Queiroz – 1930)

Nasci em 1° de dezembro de 1976, hoje fiz 40 anos. Caramba! Não podia deixar de parar e fazer uma reflexão sobre minha trajetória até aqui.

Em 1975 a mortalidade infantil no Nordeste era de 128,0 a cada 1.000 nascimentos (contra 86,0 no sudeste). Em 2000 já havia caído para 44,7 e em 2010 18,5 por 1.000 nascidos vivos. Ou seja, eu nasci numa época em que as crianças morriam aproximadamente 7 vezes mais do que morrem hoje em dia. Sou um verdadeiro sobrevivente!

Minha mãe hoje me deu os parabéns pelo meu aniversário. Acho que quem merece os parabéns é ela por ter me parido de parto normal numa época aonde não existia analgesia de parto e que parir, além se ser uma experiência dolorosa, representava um risco real de morbidade e mortalidade para a mulher. Uma das irmãs da minha mãe, alguns anos depois do meu nascimento, veio a falecer por complicações decorrentes do parto de sua primeira filha.

Na minha infância não contraí a poliomielite, ufa, doença que aterrorizava a população e que só veio ter sua erradicação por volta de 1989 quando eu já tinha uns 13 anos. Escapei do sarampo também, mas meu irmão não. Esse mesmo irmão contraiu coqueluche, esse sim foi um guerreiro. Dessas viroses só me lembro de ter sido vítima da catapora, que na infância não me trouxe maiores problemas. Já a rubéola veio me pegar quando eu já era estudante de medicina, ironia do destino.

Nunca passei fome! Mas, como todo nordestino, mesmo morando na capital, me lembro muito bem da fome alheia e da desgraça que a seca traz. Eram os ditos flagelados da seca que se amontoavam nos canteiros das rodovias para pedir uma esmola. Lembro que pessoas batiam à porta da minha casa e se ofereciam para capinar a grama para angariar uns trocados. Era muito comum pessoas comendo na calçada da minha casa. Meus pais ali, apenas com seus gestos, me ensinavam a amar ao próximo e a exercer a caridade. Mas me lembro que, apesar de tudo, a sensação era um pouco de alívio, pois a situação nos anos 70 já tinha melhorado bastante em relação às secas do passado. As secas dos anos 70 e 80 nem se comparavam à seca de 1915 quando haviam, no Ceará, os campos de concentração para os flagelados, campos que foram eternizados nos versos de Rachel de Queiroz citado acima.

Diretas Já. Por: Arquivo da Agência Brasil
Diretas Já. Por: Arquivo da Agência Brasil

Sim, eu lembro das “Diretas Já!”. Eu não entendia bem todo aquele alvoroço. Como assim? Quer dizer que não era o povo quem escolhia o presidente? Ah, e a ditadura militar?! Bem, ela já estava dando os seus últimos suspiros. Dos resquícios que consigo me lembrar estão as faixas da censura que apareciam antes do início de alguns programas de TV e da frase “É proibida a radiodifusão e execução pública da faixa ‘Revoluções por Minuto’” que havia na capa do LP da banda RPM. Em 1988 tínhamos uma nova Constituição Federal que veio a sepultar de vez a ditadura que já tinha tido seu óbito declarado alguns anos antes.

Os eletrodomésticos básicos já faziam parte da rotina da minha infância, mas telefone e TV não era para todo mundo. Lembro-me das filas nos orelhões de ficha. Lembro também da alegria quando pudemos ter uma TV em casa para assistir He-Man, e também um telefone. No interior, a situação ainda era muito ruim. Não havia nem eletricidade disponível. Lembro a empolgação quando cavaram um buraco em frente à casa do meu avô no município de Touros para fincar o poste de eletricidade. Lá, eram as cabines da TELERN que permitiam a comunicação precária com a capital. Eu não sabia porque tanta criança em Touros era magra de barriga estufada. Era a esquistossomose mansônica. Além disso, na zona rural não existia água encanada e os banheiros eram precários. Internet? Chegou em Natal muito tempo depois, eu já estava quase na universidade. A conexão era cara e lenta. Celular nem pensar, quando adquiri meu primeiro aparelho eu já era formado e morando em Campinas-SP.

Eu vi o cometa Halley em 1986! Quero estar lá com uma luneta aos meus 85 anos quando esse viajante do espaço nos visitar novamente em 2061. Na minha infância, era meio restrito o que um leigo podia almejar de entendimento acerca do Cosmos. O conhecimento sobre o meio ambiente também era pouco, muita gente achava que poderíamos queimar petróleo a vontade que a fumaça ia para o ar e simplesmente desaparecia, ou poderíamos jogar poluentes no mar que eles simplesmente iriam embora da nossa frente. Lembro quando começaram a falar acerca do buraco na camada de ozônio.

Anistia - Henfil
Anistia – Henfil

Primeiro de dezembro, além de ser o meu aniversário, é o dia mundial de combate à AIDS. Não poderia deixar de falar dela, que na minha adolescência era um verdadeiro fantasma, que ninguém entendia bem de onde vinha e nem como lutar contra. Ela vitimou gente como o músico Renato Russo e o cartunista Henfil.

Vocês não imaginam como eu estou feliz de ter nascido nessa época e de estar vivo e com saúde aos 40 anos de idade! É muito bom poder olhar para trás e: ver que as crianças nordestinas não morrem mais na mesma taxa que morriam na época que eu nasci; saber que a poliomielite, o sarampo, a coqueluche e a rubéola dentre outras tantas doenças estão controladas e todas elas são preveníveis com o uso de vacinas; saber que agora entendemos como se previne e se trata a AIDS; saber que moro em um país democrático onde posso expressar abertamente o que penso sobre política sem ter medo de ser preso ou assassinado; ver que com a melhora da condição de vida no campo o êxodo rural diminuiu apesar de estarmos enfrentando uma seca de grandes proporções; poder testemunhar a revolução que a internet proporcionou na integração social e na difusão da informação; me maravilhar com as descobertas feitas através dos dados do telescópio espacial Hubble, da sonda Cassini-Huygens (Saturno), da sonda Galileu (Júpiter) e da missão Pathfinder (Marte) dentre tantas outras coisas incríveis que aconteceram no mundo nesses últimos anos.

Meu balanço do que eu vi nesses 40 anos? O mundo melhorou muito, sem dúvida alguma.

Melhoramos muito, mas ainda há muito o que melhorar, principalmente na redução da desigualdade social e no cuidado com o planeta em que vivemos. Entendemos tanto sobre temas como meio ambiente, biodiversidade e aquecimento global mas ainda temos dificuldades em tomar ações concretas que revertam o rumo autodestrutivo que estamos trilhando.

Pois é, fazer 40 anos nem doeu! Meu segredo? Nasci no seio de uma família maravilhosa, me casei com uma mulher espetacular, tive dois filhos lindos e tenho amigos excepcionais. Ai fica fácil, não é mesmo?

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20 respostas para “40 de rombo!”

  1. Egue! Fui o primeiro a comentar… Como médico, voce pode até ter letra feia, mas escrevem bem pra CARAMBA!
    (consegui ler o texto todo, então parabéns!!)

  2. O que são 40 anos né primo! Parece tanto e ao mesmo tempo tão pouco. É um número fácil de alcançar contando de um à 40, nem demora tanto. E se transformar em décadas, são apenas quatro. Mas a vida e o tempo tem um grande mistério. Um único segundo pode ser mais chocante que uma vida inteira, já pensou? Um único segundo pode mudar o trajeto de tantas coisas. Eita, estou filosofando!

    Eu nem sabia que tínhamos 10 anos de diferença.. na verdade 9 anos e alguns meses. Em 27 de fevereiro completo 31. Parecida na minha perspectiva infantil, uma idade inatingível, mas a gente cresce junto com nossa visão de mundo que nos faz ver que na verdade somos tão pequenos diante de tudo.

    Fico pensando nessas mudanças que acontecem em 40 anos também… e até no que poderá vir depois de mim. Algumas coisas mudam muito, para outras parece que o tempo parou. É loucura!

    Abraço,

    Que Deus lhe faça chegar muito mais longe, com alegria e saúde sempre!

  3. Adorei o texto!!! Orgulho de te conhecer! 40 anos de uma das pessoas mais multifacetada que conheço!!! Parabéns! Você tem muito o que comemorar!!!

  4. Meu amigo Abinoam!

    Muito bacana o seu texto, contextualizado seu crescimento em momentos do Brasil que muitas crianças de hoje não conhecem.

    Grande abraço brother!

  5. Juninho, que venham muitas oportunidades mais de vc inventar mais alguma coisa pra fazer nessa vida! kkkkk… Ô caba pra saber de tudo… um bocado! 😉

  6. Glórias a Deus pela tua vida e por todas as conquistas. Deus continue te abençoando. Lembro-me das infinitas vezes em que estive presente nos ensaios da banda na central onde pude acompanhar de perto um grande exemplo de um pastor com muitos frutos do espírito, onde refletem em muitas vidas até hoje com os seus exemplos e caráter. Uma família abençoada, com um pastor de excepcional caráter como pai e criando os filhos a luz do evangelho de Jesus Cristo não poderia ser diferente. O resultado não poderia ser outro, exemplos de filhos abençoandos. Amo vcs em Cristo, que o Senhor continue lhes dando estratégia, discernimento e sabedoria para que vc e seus irmãos possam criar os filhos com a mesma sabedoria de teus pais. Grande abraço em toda a família. Mas tem uma outra coisa, não dará tempo de vc ver o cometa Harley novamente meu amigo. Jesus volta antes. Abraços

  7. Q texto show !!! Parabéns pelo seu dia !! Saúde plena p vc !! Para q , aos seus 85 , vc esteja fazendo sua nova retrospectiva , e quem sabe , falando q viu novamente o cometa. Um beijo p keninha ( tempão q não não a vejo )

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