Médicos contam tudo. E não é bom.

“Mas há uma questão mais profunda aqui, uma colisão de necessidades desarticuladas e medos. Os médicos têm visto o seu poder corroído pelos planos de saúde, por diretrizes nacionais de tratamento (guidelines), pela burocracia hospitalar, e agora eles têm de lidar com os pacientes que se sentem recém empoderados. Os pacientes, por sua vez, querem o prestígio e o conforto; eles se sentem tanto desafiadores quanto dependentes. E assim cada lado exerce o poder de forma passiva (ou passivo-agressiva), e talvez até de forma inconsciente.”

Fonte: Doctors tell all. And it’s Bad.

O texto citado acima foi publicado em outubro de 2014 e fala sobre a realidade da relação médico paciente no sistema de saúde americano. A autora da postagem relata inicialmente as suas peregrinações por médicos e hospitais e os problemas e dificuldades enfrentados.

“No hospital, eu sempre me sentia como Alice na festa do chá do chapeleiro louco: Eu tinha acordado em um mundo que parecia estritamente lógico aos seus habitantes, mas completamente sem sentido para mim.”

A postagem é baseada em livros recentes de médicos que narram o quão doente está o sistema de saúde americano e a relação médico-paciente.

“Para minha surpresa, eu agora aprendi que pacientes não estão sozinhos nesse sentimento de que os médicos estão errando com eles. Por detrás dos panos, muitos médicos sentem-se da mesma forma. E agora alguns estão contando o lado deles da história.”

Achei muito importante a postagem pois ela foge do lugar comum que é sempre focar no paciente toda a discussão sobre o problema da saúde. É óbvio que o paciente é a peça mais frágil dessa situação, mas se o médico está doente qualquer discussão que ignore esse fato é pouco produtiva para o próprio paciente.

“De acordo com uma pesquisa de 2012, aproximadamente 8 em cada 10 médicos estavam ‘de alguma forma persimista ou muito persimista em relação ao futuro da profissão médica’. Em 1973, 85 porcento dos médicos diziam que não tinham  nenhuma dúvida acerca de suas escolhas de carreira. Em 2008, apenas 6 porcento ‘descreveram sua moral [humor/ânimo] como positivo’ relatórios Jauhar. Médicos de hoje em dia são mais propensos ao suicídio do que os membros de qualquer outro grupo profissional.”

“Médicos de hoje em dia, ele nos diz, enxergam a si próprios não como ‘pilares de uma comunidade’ mas como ‘técnicos de uma linha de montagem’, ou ‘peões de um jogo de fazer dinheiro dos administradores de hospitais’.”

É fácil identificar diversas semelhanças com a situação no Brasil bem como no resto do mundo. Diversos são os fatores atuando nos médicos que progressivamente estão prejudicando a relação médico-paciente. Adaptados do texto e com alguns comentários meus:

  • Planos de saúde e pressão por “produtividade”. Os médicos são pressionados a atender cada vez um maior número de pacientes em um menor tempo.
  • Burocracia hospitalar. Como o foco principal da “papelada” hospitalar não é o paciente e sim a proteção jurídica contra processos e o fechamento da “conta” para cobrança, o médico perde um tempo precioso em meio a inúmeros formulários, solicitações, justificativas, e etc, enquanto deveria estar gastando esse tempo atendendo o paciente.
  • Empoderamento jurídico do paciente. Se vendo em posição vantajosa juridicamente, o paciente abre mão de construir uma relação de confiança com seu médico e opta por uma relação de imposição de suas vontades a base de veladas ameaças de processo.
  • Empoderamento “informacional” do paciente. Médicos perdem muito tempo refutando informações médicas de péssima qualidade que foram obtidas na internet e trazidas ao consultório pelos pacientes. Contrariar esses conceitos errados apreendidos pelo paciente pode gerar desconfiança. “Na internet inteira se fala que X é bom para doença Y e esse médico não sabia disso?”.

“Eu costumava achar que a mudança fosse necessária em prol do paciente. Agora eu vejo que ela é necessária em prol do médico também.”

Gostei muito do texto e fica aqui o link dele registrado. Recomendo fortemente a leitura completa do mesmo.

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/11/doctors-tell-all-and-its-bad/380785/?single_page=true


Imagem destaque: By National Cancer Institute [Public domain], via Wikimedia Commons

Uma resposta para “Médicos contam tudo. E não é bom.”

  1. É no mínimo curioso ver tão claramente a opinião de uma paciente que conseguiu enxergar algo não tão escondido nos bastidores. Sabemos que na prática a relação médico paciente bem estabelecida é definidora do resultado que se espera em um tratamento. Parece que os médicos estão sendo treinados como pilotos de avião, tomando conta de tudo enclausurados numa cabine de comandos complexos, dando recado por microfones. Os pacientes, por sua vez, são passageiros que pagaram pelo vôo, passam o tempo todo num tablet informativo que falseia o medo de voar, dividem suas experiências com seus vizinhos de assento e só elogiam de longe, com efêmeras palmas, aquele piloto que não ‘teve’ turbulências.
    Ao meu ver talvez tenhamos, médicos e pacientes, que voltar a pular de paraquedas, juntinhos e encarando desafios com o calor das nossas crenças e a confiança mútua, sabendo que os ventos independem de nossas vontades.

Deixe uma resposta